Preto
Das cores existentes eis a que mais diz sobre o mundo. Preto. Não que o mundo seja preto em si, muitos até acham que ele seja cinza. Em muitas e variadas escalas de cinza, mas ainda assim insisto no preto. O preto é a cor do delineador daqueles olhos. Os olhos através dos quais eu mesmo posso ver o mundo. Mesmo que eles estejam fechados. Preto é também a cor do All Star. Aquele já meio surrado e com ares de velho. Perfeito. A cor da noite que permite as estrelas se fantasiarem com seus vestidos de madrepérolas e fazer companhia à Lua em toda a sua majestade. Preto deveria ser a cor de tudo, mas basta-me os olhos delineados sob um céu de lua cheia cheio de estrelas.
Rock
Primeiro o som das guitarras. Depois o baixo. A bateria. A voz. Feminina. Diferente. Marcante. Compassada. A melodia contrasta com a batida forte. O som que chega aos ouvidos é ao mesmo tempo agressivo e temperado pela voz aguda e delicada. As memórias começam a revirar minha cabeça. As imagens se fazem pela musica. Cada palavra tem um representante legítimo e factualmente fictício em minha cabeça. Uma torrente. Um turbilhão. Mas de que adianta lembrar? A memória não revive nada. A música só faz com que as coisas pareçam mais perto. Rock. A batida forte continua. O solo de guitarras. Desligo o rádio.
Palheta
Ela já não se lembra direito, mas foi há muito tempo e com muito custo que conseguiu ganhar aquele objeto. Naquela época ainda tinha a pele das mãos lisa. O rosto com algumas espinhas, mas nada que atrapalhasse a sua beleza. Era menina que se fazia mulher com as primeiras maquiagens e os primeiros amores. Aquela palheta, no entanto, não envelhecera como a garota que a ganhara depois de gritar desesperadamente para o guitarrista daquela banda. Qual banda era? Ela já não se lembra. Havia achado o guitarrista bonito. Cabelos longos, sem camisa e, enquanto tocava, o tronco estava molhado de suor. Mas ela não se lembra de nada disso. Suas memórias foram se perdendo com o tempo. Algumas vezes esquece até mesmo o nome de sua filha. No entanto aquela palheta ficara ali, guardada entre as páginas de um livro velho. Marcava o tempo passado que não existe mais. A juventude de um guitarrista e a existência efêmera da beleza feminina. Tudo se condensava em uma única palheta que por si mesma, não representa nada, assim como sua cor de marfim.
Torre Eiffel
Ele a abraçou fortemente. O vento frio da noite parisiense aliado à adrenalina de poder ser pego a qualquer hora faziam daquela empreitada algo divinamente arriscada. Lá do alto viam toda a cidade. Enquanto isso, a maioria dos turistas olhava para o casal, sem saber que olhavam é claro, mas o que interessa é que ambos sabiam. Sabiam que estavam juntos e sabiam também seria assim até que a morte os separasse, se é que ela seria realmente capaz de fazê-lo. Fazia já uma semana que a torre estava fechada a visitações. Mas ele disse que a levaria até o alto, lá de onde é possível ouvir a música dos anjos. Disse que a levaria como prova do amor sem medida que nutria por ela. E assim fez. O vento beijava seus rostos e ele, com suavidade tocou, o queixo delicado dela. Com uma leve pressão fez com que o rosto de sua amada ficasse de frente para o seu. Os lábios a menos de um centímetro. Ele parou e sorriu. Ela avançou.
Livro
Velho. Empoeirado. História contada. Vidas falseadas. Paixões criadas. Memórias perdidas. Entre as páginas uma palheta. Entre as páginas, palheta e rock. Entre as páginas declarações de amor. Na capa, o preto. Livro. Velho. Palavreado-feito-contado-esquecido-misturado-coisificado. Livros, memórias, histórias, amores. Mundo.
Biologia
Uma ciência. Ciência quase exata, mas não qualquer uma. Ciência da vida. Mas não de qualquer vida. Quero a ciência da tua vida. Traduzi-la em biologia corporal. Registrar cada milímetro de teu corpo, aspirar cada átomo que a constitui. Fundir a biologia com química de nossos corpos e deles fazer da lei física da atração o pretexto para nossa união.
Gato
O guardião dos mundos. O nosso guardião. O selo que unifica. A sorte, o azar. Carinho e traição. Um signo. Um elo. Meu desvario. Sua obsessão. Gato e rato. Tudo ou nada. Eu ou ele. Você escolhe.
Vida.
Um pequeno intervalo entre infinitos escuros. Nada mais que isso e ainda assim, tudo isso. O que se esconde antes e quem brinca com o depois... Não quero realmente saber as respostas disso. Basta-me saber que você está viva. Basta ainda mais saber que você sabe que estou vivo. Basta, mas não completa. A completude se esconde em seus lábios ainda não tocados pelos meus. O verdadeiro sopro de vida que só você é capaz de dar.
Som
Galos, pássaros, passos, água, chaves, carros, buzinas, rodas, gritos, ônibus, chuva, trovão, miados, falas, mp3, fofocas, escadas, saltos, conversa fiada, sinos, mais sinos, mais conversa, mais carros, mais e mais e mais e mais, gritos, alvoroço, multidão, show, rock, futebol, torcidas, gritos, outros e mais e ainda outros. Tua voz.
Silêncio.
Música
Só há uma música, só há um ritmo: o do teu coração pulsando junto ao meu.
Tênis
Os pés descalços corriam pela areia da praia. Uma brisa leve fazia o vestido de tecido leve balançar enquanto os braços abertos pareciam querer abraçar o mundo. Havia felicidade, felicidade legítima, naquele ato. Ela corria em direção a nada, com o sorriso solto estampado em sua face. Aos poucos diminuiu o ritmo, caminhava. Sem motivo aparente entrou na casa de madeira. Algum tempo depois saiu. Não mais com o vestido leve, mas agora de calça jeans e uma camisa vermelha com detalhes brancos. Saiu, mas não completamente. Lançou um olhar incerto para fora, ao redor, procurava algo que não estava ali. Sentou-se então no banco, também de madeira, que ficava na varanda. O céu escurecia lentamente. O tédio ou o descontentamento tomavam conta, transpareciam em seus atos. Até que, num único segundo, a chama da vida pareceu reacender dentro dela. Uma moto se aproximou. Um outro cara desceu. Ela correu e o abraçou. Era ele, o outro, o que estava e está em meu lugar. Quando o abraçou, dobrou as pernas e o tênis de couro preto saltaram do solo e, por um breve momento, estavam livres enquanto ela estava suspensa nos outros braços. No entanto, o tênis ainda estava em seus pés. Aquele que eu escolhi para ela. Mesmo com outro ainda carrega algo de mim.
Globo
A juventude já havia deixado aquele casal há algum tempo e há algum tempo eles ainda nem eram um casal. Foi por uma dessas coisas que acontecem sem motivo aparente na vida que tudo aconteceu. Estava frio em Nova York, no entanto o mundo lá fora não deveria estar mais frio do que o pequeno apartamento sem as filhas e a esposa. Sean resolveu que iria até o Central Park. Anne, nem motivos para sair tinha. Apenas saiu. Seus pés também a levaram ao parque. Talvez um impulso inconsciente em busca dos anos de juventude. Quando se cruzaram, ele trazia nas mãos um globo natalino. Daqueles que quando a gente balança parece que tem neve caindo. No centro um pequeno homem vestido de vermelho sorria alegremente. Havia ganhado de um menino, naquela noite mesmo, sem explicação alguma. E da mesma forma, sem saber o porque, achou que deveria dá-lo a alguém. Escolheu uma senhora. A princípio Anne recusou. Ele insistiu. Ela aceitou por fim. Depois disso conversaram. Um encontro casual, estranho. Foram a um bar, tomaram um café e comeram. O globo ficou em cima da mesa. Saíram. Não sem antes trocar os números de telefone.
Dado
E a sorte foi lançada como num lance de dados. Dados iguais àquele que ele sempre tem consigo no bolso. Uma velha mania: Jonas carregava sempre um cubo branco com bolinhas pretas para se lembrar que a vida é como um jogo de azar: às vezes você ganha, mas quase sempre é banca quem fica com tudo. Ele sabia que ao dizer aquelas palavras, selava de uma vez por todas as quimeras criadas em sua cabeça e, ao mesmo tempo, lançava os dados para o alto. “Deus não joga dados”. Claro que não, a vida dele não está submetida às mesmas regras que a dos mortais. Mas deixemos os deuses de lado. Os dados nos interessam, um dado. Um número. Mas quais as chances reais de que as palavras dela fossem aquelas correspondentes ao seu número da sorte? Ele realmente não sabia. Levou a mão ao bolso. Sem que ela percebesse, apertou o dado fortemente contra os dedos. Era como se tentasse lembrar a si mesmo: A vida é um jogo, apenas um jogo. E não se pode ganhar sempre. Aquele velho discurso que já prepara o caminho e torna as más notícias um pouco menos doloridas. Ela abriu a boca. Dali sairiam as palavras cruciais. Os lábios brilhavam discretamente, e pareciam molhados. Ele transpirava e sentia o coração bater apressado. Apertava mais forte ainda o cubo branco de bolinhas. Apertava como se sua vida dependesse de tal ato. O tempo pareceu não ter fim naquele momento. Relembrou todos os instantes bons e, até mesmo, os difíceis que passou, as coisas que fizera apenas para estar ao lado dela, de tudo que abriu mão apenas para vê-la. Tudo estava em jogo ali. Os dados lançados. Mais força. Ela cerrou os dentes. E em seguida os dados caíram. “Sim”, ela disse e o abraçou. Ele ainda estava imóvel. Recebeu o abraço quase sem se mexer. Soltou o dado. Deixou-o cair pela rua. Desta vez ele quebrara a banca.
Espanha.
“Nunca estive na Espanha”. Tardiamente estas palavras foram encontradas no diário esquecido. Ela estava tão desorientada naquele dia, há anos atrás, que nem se deu conta de não pegara o diário. Estava escondido em canto do guarda-roupa, onde ficavam os cobertores, ela sabia que ele nunca encostaria ali. As últimas palavras escritas atestavam, ela não estivera lá. Ele sequer pensou na possibilidade de um diário poder conter inverdades, de que ela poderia ter escrito aquilo para o caso de um dia ser lido por ele. Mas isso não vem ao caso. Sentiu uma onda de dor e culpa. Não deveria ter gritado com ela. Não deveria tê-la posto porta afora. Afinal ela não estivera na Espanha. Não naquele fim de semana, e, de acordo com o diário, nunca na vida. Mas e as passagens que ele encontrou? Eram a confirmação factual. Ela havia ido. Mas não foi. As palavras do diário diziam que não. A página meio enrugada mostrava sinal de lágrimas derramadas. Pegou o telefone, pensou em ligar para ela. Mas ela agora estava de fato na Espanha. E ainda mais, acompanhada. Namorava um espanhol.
Violão
Toda mulher, seja ela menina ou não, tem uma musica à qual ela não resiste quando tocada apenas no violão e voz. Ele pode não ser o cara, mas o violão e a tal música quase se garantem sozinhos...
3 comentários:
"A vida é um jogo, apenas um jogo. E não se pode ganhar sempre."
"Ele pode não ser o cara, mas o violão e a tal música quase se garantem sozinhos..."
essas frases resumem o texto.... rsrsrs
Meu Deus, me diga de onde vem tanta inspiração?!
Fucei seu blog por inteiro e cada texto me fazia querer ler mais, sim sou compulsiva com leitura ainda mais quando agrada inteiramente.
Gostei mesmo, espero poder visitar sempre.
magnífico.
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