Do meu lirismo cansado, todos e até eu mesmo, estou enfadado. Não é preciso buscar muito longe para perceber o quanto essa vida já me trouxe de provações e sanções e provas da infelicidade espalhada pelo mundo. E é com inveja que contemplo a felicidade dos poucos eleitos por Deus, por Tupã, Odin, Zeus, seja lá quem for. É fato. Sinto inveja. Vivo num mundo cinza até mesmo onde não se pode mais colocar cor. Onde falta a luz, é ainda cinza. Cinza como o meu tênis surrado. Cinza como o asfalto seco e quente. Cinza como o céu que prepara a chuva. Cinza como o meu humor, cinza como meu coração, cinza como tudo é em vão. Certo, a última rima foi completamente sem querer e, pior ainda, infantil. Não tenho nada contra a infantilidade, a minha, a dos outros, a tua, a nossa, do mundo. Mundo infantil e injusto. Injusto não de verdade, mas mesmo assim injusto porque assim o quero. Assim o vejo. Assim o desejo, assim almejo, assim... assim... sempre. Cinza. É preciso respeitar os limites. O toque, o deleite, a aceitação, o medo, a felicidade, o momento certo, o dia depois, o corte, a navalha, a ferida, o sangue, a gota, o chão, a língua, a boca, o som, a mudez, o sol, o sul, o azul, tudo, mais nada. Nada. Não há entendimento, não há o certo, não há o errado. Há o cinza. O medo. O meio do meio termo em termos gerais esculpidos em mármore eterno enquanto minha consciência vaga etérea. Vaga entre os mundos que crio, os mundos já criados e o mundo dado. E neles e deles nada me sobra, nada me vem, nada fica, apenas eu vou passando por entre suas finas capas invisíveis e transparentes como seda que sonha em reluzir ao sol. Das brigas infindáveis que travo entre o que quero, o que posso e o que esperam que eu seja, que eu faça, o resultado é sempre o mesmo medo cinza. Tenho medo do que quero porque não posso e esperam que eu não seja nem o faça. Em fato não esperam nada, porque não conhecem o mínimo para esperar, o que transforma qualquer ato em surpresa instantânea, um raio fugidio incompreensível, mas de nada isso importa. Importa o fato que me importo com o que acho que acham que seria importante e certo pra eu fazer o correto. Mas o incorreto é mais atrativo, e mesmo assim, o incorreto pode não ser o negativo. Em todo caso, o correto e o incorreto incorrem no erro de acharem-se, cada um por sua vez e gosto, os mais certos para definir o que em mim é cinza. E por ser cinza não é branco nem preto, não é correto nem incorreto, é cinza, é neutro. Reflexo cintilante da minha impossibilidade diante do meu possível imaginário que se torna impossivelmente real e aperta a bomba, mas não a deixa explodir. Bate, volta a bater, aperta, sufoca, mas não estoura. Aumenta a pressão, sonha, acorda, suspira, toca e transpira e sangra. Sonha o sonho proibido do paraíso perdido, dos anjos corrompidos, dos vampiros santos do sonho que sonha a si mesmo enquanto acordado. Abro os olhos para o mundo e me mantenho distante, pois a distância foi imposta como condição clara para o não sentir. Não tocar para não gostar. O ser intocável não se justifica pela redoma de vidro, nem por estar distante, se justifica pelo medo que há no mundo cinza. Se justifica por ser justificável justificar-se a partir do infundado que funda o medo do sentir que é dado como oferenda aos deuses. Oferenda que é recusada e joga-me novamente num mundo sem Deus, sem Tupã, sem Odin, sem Zeus. Um mundo meu, um mundo teu, um mundo cinza. Um mundo assim, um mundo pra mim, um mundo sem fim. Um mundo enfim. Um mundo no fim. Um mundo sem mim.
2.5.09
Cinza
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