24.3.09

Experimentações

Aviso aos aventureiros: sem edição, sem cortes, sem photoshop, desastre total.

Pela rua se amontoavam as mesas sobre as quais estavam dispostas frutas. Lado a lado e também frente a frente as mesas formavam um corredor por onde os compradores transitavam. A manhã nem bem se estabelecera, o sol brilhava alto no céu, mas seus raios eram suaves e aconchegantes. A placidez do céu contrastava com a agitação na pequena feira recém formada. Pela trilha caminhavam homens e mulheres bem vestidos. Tecidos finos, eles envergavam, em sua maioria, calças e camisas pretas, as gravatas discretamente dão um tom a mais de elegância, os sapatos muito bem engraxados, a ponto de reluzir com os raios solares. Os mais ousados, ou modernos, não usavam chapéu. As donzelas, por sua vez, trajavam vestidos rodados de cores suaves, via de regra branco com detalhes em rosa ou azul claro que combinavam com as discretas sombrinhas que traziam abertas e apoiadas ao ombro. No entanto, um dos senhores a caminhar pelo corredor das frutas se destacava por sua postura altiva, um semblante de quem não tem muitos amigos, mas com certo brilho determinado no olhar, além, é claro, do volumoso bigode que se exibia acima dos lábios. Enquanto caminha por entre as pessoas e as vozes de vendedores e fregueses se misturam ele distingue as velhas senhoras que sempre o trataram com solicitude:

- Meu senhor, meu senhor! Aqui tenho as uvas mais frescas. Veja: olha como ainda ostentam uma cor vivaz. Quanto brilho tem esses bagos. Foram colhidos a bom tempo, não faz nem dois quartos de hora e estão deliciosos. Mais frescos impossível. Prove, aqui. Aposto como estão tão doces quanto os da semana passada. Não! Sou capaz de apostar que estas uvas ainda são mais gostosas que as últimas que escolhi para o senhor. Toma aqui esta. Sinta o senhor mesmo o sabor.

Colocou então uma uva na boca, sim, a senhora tinha. Razão um gosto adocicado e levemente ácido percorreu sua língua. Poucas coisas o agradavam mais do que o zelo daquelas senhoras.

***

Eis que chega ao fim da jornada. O caminho encontra seu fim em grande e escuro buraco. Não há mais nada à frente. A linha do horizonte se perde no infinito, sem montanhas ou qualquer outra coisa que turve o céu. Um passo a mais e se está dentro de um abismo do qual não se vê o fundo, pois luz alguma até hoje conseguiu lançar seus braços e dissipar completamente o sombrio mistério que jaz em tais profundezas. Um passo e... Deste ponto em diante as coisas, as palavras, os sons, nada mais é capaz de avançar. Tudo e todos que se aproximam deste precipício não tem escolha: ou dão um passo à frente e despencam no buraco negro e desconhecido que se apresenta como o fim do caminho, ou voltam e não suportam a vertigem e a força que exala daquelas profundezas. Só “não olhe por muito tempo para dentro do abismo, pois ele também vai olhar para dentro de você”.

***

Primeiro calmamente. Um manto azul parecia se estender estático pela imensidão como se não possuísse limites. Depois, enquanto deixava os olhos buscarem não mais a linha do horizonte, mas pouco a pouco divisando as redondezas mais próximas, percebia um leve movimento tomar forma. Acompanhou então o levantar das águas e sua gradual aproximação. A cada metro parecia estar mais embalada até que subitamente, como se reunisse forças, num rompante a onda que se formou inclinou-se sobre si mesma e desenhou um canudo sobre a superfície lisa do mar, como se um pano de uma mesa dobrasse sobre si com o sopro do vento.

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