E ela acabou de sair da biblioteca. Livro da Clarice na mão e um sorriso meio bobo no rosto. Não sabia bem porque razão estava feliz. Mas também não se deu o trabalho de perguntar de onde vinha aquele sentimento. Apenas estava vivendo o que a vida lhe oferecia de bom. Sem se perguntar se era favor divino ou besteira de criança que ganhou brinquedo novo. Estava feliz e pronto. Simples desta forma, nem mais nem menos. Pôs-se a andar sem rumo. Não interessava saber para onde estava indo também, apenas queria ir. Quando não se sabe para onde se quer ir, qualquer caminho serve. E isso era verdade naquele momento. Qualquer caminho serviria mesmo. Ou talvez não, mas se assim fosse, seria outra história e não esta.
Foi naquele momento que ele saiu do banco. O mundo não prestava mesmo. Se havia um Deus, com certeza Ele não se lembrava daquela pobre criatura. Ou assim lhe parecia. Nada dava certo. Algumas coisas, as que pareciam dar certo, no final se revelavam mais catastróficas do que nunca. Ele era a encarnação de todas as Leis de Murphy, talvez fosse o sumo sacerdote desta filosofia do azar, que estava praticamente virando uma religião.
Sem reparar ainda por onde andava, passou por uma igreja. Sem motivos resolveu entrar. O interior estava vazio. Não havia ninguém, nem mesmo as freqüentes senhoras que normalmente encontramos a rezar nos primeiros bancos, perto do altar. No entanto, a falta de pessoas no recinto não surtia sobre ela um peso de solidão negativa. O silêncio sacrossanto da igreja ressoava em sua alma e tornava-a ainda mais feliz. Acomodou-se em um dos grandes bancos de madeira, abriu o livro que trazia consigo e começou a ler.
Já fora do banco rumou então para casa. Não queria mais saber de serviço naquele dia. E por sorte (mesmo que ele não acreditasse nela) não havia mesmo mais nada a ser feito. Ele morava em uma casa modesta junto com a mãe e duas irmãs mais novas. Os pais eram separados. Andava e não prestava atenção
Depois de ler algumas boas páginas do livro estava agora mais maravilhada do que antes. Clarice entende realmente a alma feminina. Ou pelo menos assim pareceu à garota que terminara sua leitura. Saiu da igreja e viu um dia maravilhosamente cinza, mas que tinha ainda alguns raios de sol espaçados que desenhavam um tímido arco-íris no céu. O vento era como se fossem lufadas de frescor à flor da pele. Os carros na rua passavam e, junto com as pessoas andando nas calçadas, conferiam vida a toda cidade. Tudo estava em perfeita harmonia. Olhava distraída para tudo e para todos. Via os rostos, mas não os fixava. Eram todos como se fossem eternidades efêmeras. Cada segundo, cada pessoa eram mágicos por si mesmos. O mundo era carregado de magia, sem dúvida alguma. Enquanto olhava distraída para o céu, dobrou a esquina.
Não olhava nem mesmo para onde andava. Cabeça baixa, fixava no máximo alguns centímetros à frente de seus pés. Não havia nada no mundo que merecesse ser visto. Não havia nada que valesse o trabalho da elaboração cerebral das imagens captadas pelos olhos. O que interessava mesmo era sumir, mas na impossibilidade de se fazer isso, fazia desaparecer o mundo. Simplesmente fechava os olhos, ou melhor, não olhava para nada que não fosse o chão sob seus pés. E o chão não mentia, era imundo. Trazia a sujeira já em sua superfície. Esfregava-a na cara de quem quisesse olhar. E as pessoas não olhavam para o chão. Elas não gostam de ver a realidade. Talvez o cinza do céu também fizesse esse efeito, mas sua “sujeira” era intocável e não impregnava. O chão fazia o serviço bem feito.
Eis então o encontro! Um mundo. Dois mundos! Qual mundo?
Como se não bastasse tudo o que aconteceu, mais essa. As pessoas deveriam olhar por onde andam, prestar atenção nos lugares onde pisam. É impressionante. Um sorriso o pegou de surpresa:
- Me desculpe. Eu sou tão atrapalhada... Mil desculpas, ai que vergonha... – Ela abaixou-se para pegar o livro que havia caído com o choque entre eles. Quando olhou novamente para o rapaz recebeu um olhar frio e estranho.
Ele continuou a andar. Ela voltou ao seu caminho. Enquanto voltava para casa ele viu os últimos momentos do arco-íris antes do sol se esconder e a chuva cair. Ela, depois de pegar o livro, viu-o sujo e o limpou com as mãos.
1 comentários:
Atualizar esse blog de vez em quando não faz mal não...^^
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