E lá de cima daquelas pedras, perdido no nada sem fim dos pensamentos que não ouso adivinhar se existiam ou não, ele via a velocidade do mundo moderno passar abaixo de si. O sol quente fazia o corpo transpirar, mas ele continuava imóvel, agachado sobre uma barreira de pedras, apenas isso, ou nada além disso. Trazia sobre a cabeça um boné já gasto, azul, com letras escritas; quem passava pela rodovia não conseguia ler as palavras lá gravadas. Seu rosto já castigado pelo tempo, pela vida e pelo sol, era escuro. Trazia em cada ruga a impressão de duras penas. Seu olhar perdido denunciava ainda mais, evidenciava cabalmente a inexistência de qualquer sentido para a vida, mesmo após tanto tempo já transcorrido. Não. Não havia consciência clara de que não existia sentido algum, se quisesse, se soubesse, não hesitaria em se jogar dali de cima em meio aos carros. Mas, até mesmo dentre os que juram não haver sentido na vida, muitos deles ainda permanecem vivendo. Mas ele, que não se chama José, entretanto, será por alguns instantes José. José não se dava conta de nada, os olhos fixados na rua lá embaixo apenas via os carros passando a toda velocidade, às vezes um ou outro ônibus azul... Não se movia, estava perdido no nada, parecia divagar os mistérios mais profundos da existência, mas pelo contrário, sem saber, deliciava os prazeres da ignorância. O prazer não consciente de apenas ser. Reduzido talvez à condição natural do homem "animal". Antes de tudo animal. Sem diferença específica. Sem definições. Ser vivo e "sentinte". Abstem-se, sem conhecimento próprio, de seu pensar, da reflexão, do saber. Apenas é presentemente sem ser para nada. E se todos os problemas do homem começaram com uma única mordida no fruto do conhecimento, a salvação está, então, em não conhecer. José nem disso sabe, se soubesse, no entanto, já estaria condenado.
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